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Estado crítico

Sempre converso com amigos de longe, pessoas com quem gostaria de sair, comer algo e conversar, mas que por um motivo de logística, é impossível. Moram em lugares que se um dia der a louca e resolver ir a pé, chego depois de nascer um político honesto.

O nosso país é deveras gigantesco, um continente dentro da América do Sul. Estamos ali, engolindo os outros países com a nossa curvatura imponente. Abraçando tudo, do Rio Grande do Sul ao Acre, apesar deste último relutar em existir.

Cada um dos vinte e seis estados brasileiros tem uma cultura, um jeito de viver, em suma, um universo próprio. São países dentro do nosso país.

Não me referi ao Distrito Federal como um estado pelo simples motivo de não ser um. Afinal, é ele, tão pequeno, que destrói a imagem dos outros! Sem piedade.

Vamos imaginar que o Brasil fosse uma pensão, em que os estados viveriam em grande harmonia, ou ao menos, tentariam.

Oxi! Que sunga pendurada aqui no varal é essa? – Disse Ceará em tom alto, para todos ouvirem.

– É minha peixe, voltei da praia agora, mó lua – Rio de Janeiro responde.

– Tinha que ser você mesmo, não tem respeito por ninguém. E a tabela de deveres que fiz ontem? Não vai seguir? – São Paulo retrucou. Mas logo o Rio devolveu:

Qualé mermão, tu é forgado mesmo falaê!

– Mato e chuva – Disse Amazonas, se intrometendo.

– Vamos parar de brigar tchê. Estou tri chateado com vocês! Parecem duas bibonas que dormem no mesmo quarto, pertinho e só brigam! – Rio Grande do Sul diz em voz autoritária.

São Paulo e Rio de Janeiro entendem o recado e vão para o quarto, conversando sobre um fazer o dever do outro e o outro ir para praia, como sempre faziam. Também gostavam de discutir com quem ficaria a gatinha de estimação dos dois, a Dutra.

No caminho para o aposento olharam para o canto da sala e lá estava Minas Gerais comendo um queijo. Chegaram a questionar o motivo dele comer ali, em um lugar estranho e sem mesa. Minas sempre respondia:

– …

Mais tarde chegou Paraná. Veio da rua com alguns brinquedos novos. Eletrônicos. Tudo bem barato para vender para os amigos. Acabou vendendo tudo que trazia para cada um dos vinte quatro amigos. Só não vendeu para o Acre porque não o achou na casa.

Paraná tinha uma queda muito grande por Curitiba, que era uma loira escultural, daquelas de parar países inteiros. Só que ela não dava muita bola, afinal, pra ela só existia o seu próprio mundo. Não se misturava.

Todos as noites, Ceará chamava o Bahia, Pernambuco e o Pará para uma partidinha de baralho bêbado. Que consistia em beber enquanto joga, ganhando ou perdendo. Coisa de homem, sabe? Não chamavam os demais porque sabiam que eles não aguentariam tanta masculinidade e testosterona aflorando naquela sala. Ainda mais o Rio Grande do Sul, que era sempre taxado como o afeminado do grupo, não se sabe o motivo.

São Paulo sustentava a casa, tinha o melhor emprego, era mais organizado e metódico. Contava com uma boa parte dos amigos da pensão ajudando, como o Rio Grande do Norte, Pernambuco e o Ceará, que sempre participava de tudo que São Paulo fazia. Enquanto o povo trabalhava, o Rio de Janeiro curtia uma praia e o Bahia deitava em sua rede comendo um acarajé. O Amazonas, com a clareza de sempre,  recitava:

– Mato e chuva.

Uma confusão se instalava sempre que iam chamar Roraima e Rondônia para fazer qualquer coisa. Eram duas gêmeas idênticas que nunca ninguém conseguira saber quem era quem. Até que alguém, algum dia, chamou uma das duas de Rô e acabou dando certo. Só chamar de Rô que uma olha, independente se for a certa.

Lógico que uma idéia dessa mereceu muitas palmas de todos os presentes.

– Muito obrigado – Disse Tocantins.

Todo final de mês era um deus-nos-acuda para o pagamento do aluguel. O dono do local era o Sr. Brasil. País distinto, educado,  que cobrava muito pouco dos seus inquilinos, mas em compensação tratava cada um de um jeito.

Em todo dia de pagamento o Acre sumia, sem dar notícias, fazendo com que São Paulo pagasse a parte dele, todos os meses. Conseguiam achar Mato Grosso e Mato Grosso do Sul com muita dificuldade, mas como eram grandes e gordos, ficava mais fácil.

Marrapá, vamos pagar pra esse tal de Acre até quando? Nunca vi ele por aqui – Dizia Maranhão, meio descontente.

– Pode deixar, a parte dele eu pago para sempre, simples – São Paulo disse como se tivesse o domínio da situação.

– Sê tem que pagar mesmo, mó otário! Trabalha aí pra gente rapá!  – Todos já sabem quem foi que provocou.

Quando São Paulo, enfurecido,  foi pra cima do Rio de Janeiro, alguém o segurou e falou:

Pó para. Qué vê briga aqui não sô.

Todos olham para o Minas Gerais, que saiu do canto costumeiro e falou em alto e bom som, coisa que não fazia há anos.

Os inquilinos se entreolharam espantados, depois de ouvir finalmente a voz do Minas Gerais. Olharam para ele como se procurassem uma explicação, que veio logo a seguir:

– Ué! Parei de comer.

E alguém completa:

– Mato e chuva.

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