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Aquáticos

Só quem vive em São Paulo pode entender o que é morar nessa metrópole. Costumo dizer que a terra da garoa tem de tudo em abundância. Temos muitos estádios para os amantes do esporte, shows para os adoradores de música, eventos, festas, shoppings centers para os adolescentes andarem e compararem o estilo com os outros similares e muito mais. Essa é a abundância referida acima, vista pelo lado bom. Pelo lado Jardins, Morumbi e, Anália Franco.

Agora vejamos o outro lado. O lado Itaquera da coisa. São Paulo também tem excesso de carros, fumaça, cimento, crimes, camelôs e, umas das piores dos últimos tempos, água. Somos diferentes dos nossos irmãos que sofrem com as secas no nordeste. Temos muita água. Principalmente no começo do ano.

Mas vamos imaginar uma situação hipotética. Com personagens hipotéticos que moram na zona leste da capital paulista.

Josismar acorda para trabalhar. Escova os dentes e se prepara para tomar o café. Mora em um sobrado. Antes de descer, coloca a máscara de mergulho e pula na escada. Vai nadando até a cozinha. Seu café está fraco. A sua mulher tenta justificar, mas é obrigada a subir para o segundo andar para respirar. O pão de alho tem gosto de sopa. Ele acredita que acordou com o pé esquero. Não será um dia muito bom.

Para sair de casa, Josismar tem que pegar a lancha na garagem. Imediatamente ele se lembra de um detalhe essencial para o desenrolar da crônica. Ele não tem lancha. Improvisa uma embarcação com o sofá da sala e as boias dos filhos. O filho menor dorme no andar de baixo. Não tinha acordado ainda. Bom, não deve precisar de ajuda. Ano passado nasceram algumas barbatanas nas pernas dele. Já deve se virar sozinho.

Já na rua, com um clima especial de tarde em Veneza, Josismar encontra seus vizinhos também saindo para o trabalho. Há um congestionamento de canoas, sofás e botes salvavidas. Aparece também uma banheira de hidromassagem.

– Grande Josi! Como vai a vida? – pergunta um dos vizinhos, enquanto remava a canoa.

– Vamos levando. Impostos, comida cara, conta de água altíssima. E a sua?

– Comprei uma piscina nova. Que tal levar sua família pra nadar amanhã a tarde?

– Verdade. Preciso relaxar. Se na volta estiverem vivos, amanhã apareço por lá.

– Combinado. Só espero que saibam nadar. É funda!

Depois de três horas remando com o braço da cadeira da sala, chega ao escritório. Por sorte é no segundo andar e a água só bate no joelho. Dia agitado. Tinham visto um pedaço de calçada do outro lado da rua. Mas foi alguma parte descolada que estava boiando. Decepção.

No escritório, não faltava assunto. Josismar tinha muitos amigos e era uma pessoa bem querida. Naquele dia, estavam tentando lembrar como eram bonitos os troncos das árvores.

– Lembra das raízes? Dava pra ver algumas quebrando a calçada!

– Sim. Aquela cor marrom, às vezes podre. Ah…

– Saudades daqueles buracos nas ruas. Em que a água entrava e…, qual era o nome mesmo?

– Boeiro!

– Esse mesmo.

– Lembram quando o atletismo ainda era com os pés?

– Bons tempos.

Todos concordam com resmungos e movimentos de cabeça. Suspiros.

Josismar volta para casa. Encontra mulher e filhos assistindo televisão no telhado. Precisa de um café. Está cansado. Aguado. Pão com gosto de sopa. Ele olha pra cima e fala pro resto da família:

– Glub glub.

Nada até o segundo andar e tenta novamente:

– Ah, amanhã tem piscina no vizinho!

A mulher e os filhos se olham e nem precisam falar para concordarem:

– Vai ser o melhor dia da semana!

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