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A Magia Brasileira

Era uma manhã bem comum em São Paulo, tirando uma ou outra “manada” de Tamanduás passando pelas ruas. Era um dia tão comum, que Washinton se levantara para tomar café, como em todos os outros dias.

– Filho, quer geléia? – dá um pequeno grito, sua mãe. Respondido logo em seguida por um sonolento Washinton:

– Pode ser, já tô saindo do banheiro.

Sentados à mesa, mal podem perceber que uma criatura havia entrado na casa. Estava parada alí, do lado deles, esperando ser notada. Carregava uma carta na boca. Era um Tamanduá.

Washinton olhou com descrença, como se ainda estivesse sonhando, e pegou a carta da boca do animal. Bateu os olhos no remetente:

Para: Washinton da Zona Leste, mesa de café da manhã.

De: Escola de Magia HuEguarts.

Ele não parecia acreditar, não entendia nada de magia. Havia nascido e crescido com a mãe, em um bairro pobre da zona leste da capital paulista. A mãe lavava roupa para os vizinhos. Ele não tinha muito com o que gastar no alto dos seus doze anos. A vida era difícil.

Mas o espanto maior veio ao abrir a carta, que estava escrita com letras garrafais e com um carimbo da referida escola:

Prezado senhor Washinton, você está convidado a participar de nossa escola de magia a partir deste ano. Temos monitorado desde o seu nascimento até o dia de hoje e temos a certeza de que você é um mago de futuro promissor.

Na segunda página, encontrará o material escolar e na terceira, um boleto para pagamento da primeira parcela. Caixa Econômica Federal, Conta Poupança.

Após ler duas vezes o conteúdo da carta, entregou para sua mãe. Se ela achou algo estranho, não disse nada. Só comentou que o preço para a matrícula estava salgado e precisaria lavar mais roupas aquela semana.

Com a cabeça meio confusa, Washinton foi com a mãe até o Guetto Paralelo. Local onde vendiam artigos de bruxaria. Compraram os materias mais ou menos três vezes, foram roubados duas e presenciaram um atropelamento de vassoura voadora. Era um mundo novo e excitante para Washinton. Para a mãe dele, parecia tudo tão normal e rotineiro. Washinton estranhou.

– Mãe, você já veio aqui? Como sabia que aqui venderia tudo que precisamos?

– Eu frequentei HuEguarts quando menor, meu filho. Mas não vou contar mais nada. Não faça perguntas.

Washinton conhecia o humor da mãe. Não adiantaria abrir a boca no momento. Ainda mais quando se dirigiam para a loja de varinhas mágicas.

Chegando lá, escolheram entre vários modelos. Semi-Automática, Calibre 420, Explosiva e demais modelos. Washinton gostou da Varinha de Asas de Fada, fazendo com que sua mãe pensasse que era um mago homossexual. Um Magay.

As aulas começariam depois do carnaval, então Washinton esperou pacientemente, lendo seus livros de escola, até chegar o referido dia. Quando um tamanduá chegou esbaforido com uma carta que dizia:

Para Washinton, depois de seu banho de 40 minutos:
Embarque na estação Praça da Sé, às 18:00 sentido Itaquera. Finja que não tem nenhuma pessoa na estação e ande até a plataforma. O trem aparecerá às 18:03.

Ele, que havia demorado 40 minutos no banho, se secava e lia a carta várias vezes. Seria meio difícil pegar esse metrô naquele horário, mas tentaria.

Chegando na estação da Sé,  às 17:00, Washinton e sua mãe tentaram abrir passagem entre as pessoas que estavam na plataforma, sem sucesso. Depois de vinte minutos, peceberam que alí não era a plataforma, era a fila para comprar bilhetes que se juntou com a plataforma. Washinton deu um suspiro de tristeza. Iria perder sua oportunidade de aprender magia de verdade.

Mas como em um passe de mágica, às 17:50, as pessoas desapareceram. Todas haviam corrido para um local da estação, onde se distribuiam camisas de candidato a prefeito de graça. A passagem estava livre e Washinton estava na plataforma no horário correto. Embarcou perfeitamente no trem, dando um beijo forte em sua mãe, que voltava para casa sozinha.

Dentro do trem, ele fez um amigo logo ao se sentar. Era um rapaz com um bigode ralo e aparência suspeita. Lembrava o cobrador do ônibus que Washinton pegou dias atrás. Seu nome era Adalberto.

Conversaram sobre tudo. Adalberto era de uma família respeitada de magos, todos tinham esses bigodinhos e essa aparência. Mesmo aos doze anos. Washinton teve vergonha de contar de onde surgira, mas contou.

Depois de duas paradas, o trem para HuEguarts estava lotado. Os dois tiveram que dar lugar para dois magos idosos, porque estavam sentados em assentos preferenciais. Ficaram de pé, com o trem lotado. Trem este que quebrou algumas vezes antes de chegarem ao destino: A grande escola de magia de HuEguarts!

Washinton ficou abobalhado com o que via. Nada parecido com aquilo teria visto na Zona Leste em sua vida. Adalberto parecia um pouco surpreso, mas nada além do normal.

A escola tinha quatro andares, grades em todas as janelas e arames farpados nos muros. Os muros estranhamente pixados com frases do tipo “Creisson passou por aqui” e “abaixo DuduMenor”.

Quando chegaram no salão principal da escola, Washinton percebeu que haviam cinco mesas. Uma para o diretor e os professores e as outras para os alunos. Cada mesa com uma cor diferente.

O diretor se apresentou como DuduMenor, e também disse o nome de cada professor, no qual Washinton não prestou atenção. Depois pediu para os alunos colocaram um boné com os dizeres “Vida Louca” na cabeça. Um por um. Para que o boné lhes dissesse em qual mesa sentar, junto dos veteranos.

Haviam quatro mesas que representavam as quatro partes da escola. Malandórias, Br-br, Mensalrina e Superfatunal. Washinton achou mais bonita as cores da Mensalrina, e torceu para ser escolhido pra lá.

No final das contas, acabou indo para onde queria, seguido por seu novo amigo Adalberto. Os novos magos aprendizes da Mensalrina. Foram acompanhados até os seus aposentos, que continha quadros mágicos que se moviam. Em um deles em particular, aparecia o famoso mago Alvo Malufore, que sorria e falava “Fui eu que fiz”. Dormiram.

No dia seguinte, foram direto para a sua primeira aula: Corrupção, uma arte das trevas. Que foi muito agradável, já que aprendiam e ganhavam uma grana extra dos colegas nos exercícios. Nessa mesma aula, conheceram uma terceira pessoa para o grupinho. Zuleide. Uma menina muito inteligente, que saiu da sala com o dobro de dinheiro com que entrara.

A próxima aula seria de Trato com Trouxas Mágicos. Trouxas era o modo como os seres mágicos chamavam a população em geral. Trouxas. Outra aula agradável que consistia em discursar para um bando de pessoas “não-mágicas” e convencê-las de que falava a verdade.

Adalberto, Washinton e Zuleide ficaram muito amigos. Entraram para o time de QuadrilhaBol de HuEguarts e estavam ficando famosos. Gostavam do ambiente da escola e das aulas de “Transfiguração, transformando estádios em dinheiro” e “Porções de Grana” com o professor Severamente Rico.

Mas nem tudo era perfeito em HuEguarts. Os magos tinham um inimigo poderoso. Que eles tinham até medo de citar seu nome verdadeiro. Quando tinham que falar sobe ele, se referiam como “Aquele-que-não-pode-ser-montado”. Seu nome verdadeiro era Capitão Paulo Inácio, mas preferia ser chamado só pelas iniciais.

HuEguarts e toda essa magia, estava escondida em Itaquera. Ninguém poderia descobrir sobre a escola, os trouxas não entenderiam. Como dizia DuduMenor nas refeições:

– Os trouxas não acreditam em magia. Eles querem extratos bancários e comprovantes das obras que fazemos. Não acreditam que conseguimos tudo através de nossa magia! Acredito que nunca entenderão. Temos que esconder tudo deles, para sempre.

Agora Washinton entendia tudo. Estava do outro lado da moeda. Os políticos não eram corruptos como sua mãe bradava na frente da TV. Mas peraí, ela não estudou aqui?

Mas os políticos eram seres mágicos. Faziam aparecer dinheiro. Estava tudo explicado. A humanidade estava salva! Não havia corrupção!

Washinton cresceu, se formou e voltou para o mundo dos trouxas. Ficou rico, derrotou o Capitão Paulo inúmeras vezes, comandou o país e morreu, doando sua fortuna para Hueguarts, como prometera.

Afinal, o lema da escola era: “Me dá gold?”

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